30 março 2011

Sobre o Ego


Para se estabelecer qualquer laço afectivo consistente, é necessário ser capaz de se libertar da afirmação constante do ego. Um ego exigente mina os melhores canais de comunicação, impedindo que a compreensão chegue ao outro, deixando-a enclausurada nas suas próprias percepções e necessidades. Todo o terreno fértil fica reduzido a um imenso baldio, onde crescem apenas as ervas da afirmação pessoal, sabe-se lá a que preço. Não há vínculo afectivo livre e saudável que resista à afirmação compulsiva do ego, que tudo molda ao utilitarismo. As relações com o mundo e com os outros são usadas para preencher vazios, que inexplicavelmente nunca ficam preenchidos, até porque nunca nada será bastante, de modo que os mesmos padrões de vampirismo serão sucessivamente repetidos.


Dependente daquilo que o exterior lhe proporciona, cresce em importância o «parecer ser», como uma bola de neve a atropelar o «ser» verdadeiro, que vai perdendo cada vez mais consistência e estrutura. De cada vez que uma mentira se consolida, outra começa a ganhar forma, gerando o apoio de que o «parecer ser» precisa para se aguentar. E daí nasce a distância: de si próprio e dos outros. Ela gera uma solidão cada vez maior, que se pode tentar enganar com encontros utilitários, que não são mais do que grandes desencontros, passíveis de gerar desencanto e até sofrimento.


Como sair daqui? Como se curar de um ego assim, que ninguém deseja admitir possuir? Antes de mais há que o reconhecer sem mascarar os sintomas, sem desculpas para si próprio e culpas atiradas aos outros. É preciso querer olhar para o que existe de facto, sem querer «parecer ser», para poder reconhecer os seus mecanismos e comportamentos. É imprescindível fazê-lo para ser capaz de construir uma forma de estar diferente. Os suportes para essa nova forma de estar precisam de ser edificados um a um, consolidados um a um, de modo a produzir toda uma estrutura que possa apoiar um carácter com outra natureza, agora bem mais centrada e capaz de produzir equilíbrio e serenidade para si mesmo.


Depois há que abrir o coração ao amor verdadeiro. Esta pode ser a mais difícil de todas as tarefas, mas é a que produz resultados decisivos e duradouros. O amor verdadeiro que não espera recompensa apenas é. Não se mascara nem anda de cara escondida e, em vez de prender o ser liberta-o. É ele que permite segurança, plenitude e a verdadeira satisfação de se saber quem se é, sem necessidade alguma de querer parecer seja lá o que for.

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